Contrabando: Quando o mimo atrapalha a formação do jovem atleta
20/07/2026 18:16 | Geral
Por Central da Raquete | @centraldaraquete
CONTRABANDO: QUANDO Ο ΜΙΜΟ ATRAPALHA A FORMAÇÃO DO JOVEM ATLETA
Ele aparece no bolso do avô, na bolsa da madrinha, na saída da escola, depois do treino ou antes do jantar.
Pode ser um chocolate, um salgadinho de pacote, uma bala, um pirulito, um chiclete, um refrigerante ou aquela barra de cereal que parece saudável porque aprendeu a se vestir para a publicidade.
Na formação dos nossos aprendizes de atleta, chamamos tudo isso de contrabando.
Não porque uma guloseima isolada destrua a saúde ou o rendimento de alguém. O problema começa quando as exceções entram escondidas, fora de hora e sem qualquer relação com a rotina combinada pela família.
DE ONDE VEIO O TERMO "CONTRABANDO"
O termo "contrabando" surgiu da experiência prática de professores e dirigentes responsáveis por crianças e adolescentes em clubes, escolas, equipes de competição, agremiações esportivas e grupos escoteiros.
Nesses ambientes, manter horários e hábitos minimamente organizados é um grande desafio. Cada família possui costumes diferentes, mas, dentro de um grupo, não é possível que cada criança decida sozinha o que e quando comer. A equipe tem hora para treinar, viajar, descansar e se alimentar.
Foi nesse contexto que doces, salgadinhos, refrigerantes e outros produtos levados fora do planejamento passaram a ser chamados de contrabando: alimentos que entravam sem fazer parte do acordo coletivo, muitas vezes escondidos nas mochilas ou oferecidos por familiares como mimos.
A expressão foi se consolidando ao longo dos anos entre os professores do Colegiado de Docentes, Pesquisadores e Desenvolvedores do Método A.
O objetivo nunca foi criminalizar alimentos ou criar culpa. O termo serve para distinguir a rotina da exceção e lembrar que a alimentação também faz parte da formação esportiva.
A criança deve aprender a escolher, mas não pode ser deixada sozinha para decidir tudo. Educar também significa orientar, estabelecer limites e compreender que uma alimentação equilibrada é uma das primeiras formas de cuidado, prevenção e proteção da saúde.
O MIMO QUE DESORGANIZA
Quase sempre o contrabando chega acompanhado de boas intenções.
Avós, padrinhos, madrinhas, tios e amigos querem arrancar um sorriso imediato da criança. O gesto é afetuoso, mas pode interferir no apetite, substituir alimentos importantes e enfraquecer a organização construída pelos pais.
O Ministério da Saúde recomenda que alimentos in natura ou minimamente processados sejam a base da alimentação e alerta que ultraprocessados não devem ser utilizados como prêmio ou recompensa.
O alimento oferecido como prova de amor pode ensinar que o amor sempre precisa vir embrulhado em açúcar.
O DIA DO CONTRABANDO
A proposta é simples: o aprendiz de atleta escolhe um dia da semana para consumir, com moderação, alguma coisa que normalmente não faz parte de sua rotina.
Esse dia não deve coincidir com a véspera de uma competição, nem com períodos de doença, mal-estar ou recuperação de lesões.
Caso o jovem escolha consumir o contrabando em outro momento, considera-se que a exceção daquela semana já foi utilizada. Não é castigo. É consequência do trato.
O objetivo não é ensinar medo da comida. É ensinar que existe diferença entre vontade e necessidade, rotina e exceção, prazer imediato e projeto de longo prazo.
UM ACORDO ENTRE ADULTOS
O trato precisa ser conhecido por pais, avós, padrinhos, madrinhas, treinadores e demais familiares.
Não adianta exigir autocontrole da criança enquanto os adultos competem para descobrir quem consegue comprar seu sorriso mais rapidamente.
Também pode ser necessário conversar com escolas, clubes e ambientes esportivos nos quais salgadinhos, refrigerantes e doces ainda aparecem como recompensa automática, lanche cotidiano ou parte inevitável da socialização.
Uma rotina saudável não pode depender apenas da resistência de uma criança diante de tudo aquilo que os adultos colocam ao seu alcance.
APRENDER A VIVER NO MUNDO REAL
O mundo real possui aniversários, viagens, festas, chocolates e tentações. O aprendiz de atleta não precisa viver isolado deles.
Precisa aprender a encontrá-los sem abandonar todos os seus compromissos.
A disciplina alimentar não é construída pela proibição absoluta, mas pela capacidade de fazer escolhas. E essa capacidade começa quando os adultos deixam de sabotar, em nome de um sorriso de poucos segundos, aquilo que levará anos para ser formado.
O doce dura alguns minutos. O hábito pode acompanhar o atleta por toda a vida.